Compaixão
Contaram-me a história do Seu João, dias atrás, e desde então tenho pensado no que ouvi. Conheci o seu João. Trabalhava como zelador de um prédio em que morei, há alguns anos. Um homem de uns 60 anos, quieto e cordial. Vivia sozinho no apartamento que o condomínio lhe havia cedido. Seu João não tinha família, nem amigos fora do edifício. Estava sempre lá, dia e noite, de segunda a segunda.
Um dia, a síndica decidiu que o prédio não precisava mais de um zelador fixo e o demitiu. De um golpe, seu João ficou sem o trabalho, sem a casa em que morava e, provavelmente, sem todas as pessoas com quem travava relações minimamente amistosas. Comunicado da demissão e do despejo, seu João recolheu-se no fim da tarde ao pequeno apartamento que teria de deixar em determinado prazo. De lá não mais saiu. Naquela noite, ele morreu do coração.
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É claro que a síndica não tem culpa alguma pela morte do seu João, e é claro que ela devia ter sólidas razões para demiti-lo. O que me espantou foi como reagiram algumas pessoas quando lhes contei a história e disse-lhes qual era a minha conclusão. Supus que a demissão provavelmente foi abrupta e imaginei se o condomínio não poderia ter feito uma proposta intermediária ao velho zelador. Bem. Essas pessoas a que me refiro acharam que a síndica não teria de fazer nenhuma concessão ao seu João. Que, se ela concluísse, como concluiu, que a demissão devia ser sumária, tinha de demiti-lo sumariamente, como demitiu.
Repito: não estou criticando ou julgando a síndica, até porque ela pode muito bem ter procedido da maneira como eu considerava correta. Estou criticando e julgando a reação dessas pessoas, que, inclusive, nem foram tantas assim; foram duas. É que esse tipo de reação representa uma postura bastante característica do nosso tempo.
Representa a falta de compaixão.
Nos casos de demissão isso é ainda mais flagrante. Não são poucos os chefes, chefetes, executivos e administradores que conheço que se orgulham de demitir gente. Empinam o nariz e suspiram:
– Às vezes é preciso ser duro.
– Fiz o que devia ser feito.
E quando alguém sofre um acidente ou se dá mal por algum motivo o que mais se ouve é:
– Também... Ele mereceu!
As pessoas sempre encontram justificativa para não ter compaixão.
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Na sessão de autógrafos dos meus livros Cris, a Fera e Meu Guri, terça-feira, uma leitora se aproximou e disse algo que me enterneceu:
– Eu percebo que tu és uma pessoa boa.
Não que eu seja tão sensível a elogios, nem que concorde com a gentil leitora, mas não conheço nada mais belo para se dizer a alguém.
Você é uma boa pessoa. É o mesmo que dizer que essa pessoa tem compaixão. Gostaria de realmente ter compaixão. Gostaria de que realmente houvesse mais compaixão por ai.Texto extraido da edição de Zero Hora desta sexta feira dia 17 de Outubro 2008.